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CONFLITO BOM TEM TRÊS LADOS

Publicado por Carlos Chaparro em 6 de dezembro de 2016

 

Com seus ideários e valores, a sociedade
é parte inevitável dos conflitos
que interessam
à democracia e ao jornalismo.
Está nela o lado dos conflitos que
deve funcionar como fonte
de critérios para a notícia
e para as razões do agir jornalístico.

 

 

 

Nas andanças de professor, é comum envolver-me em debates com colegas menos otimistas, que enxergam no jornalismo de hoje desgraças mil, sem solução. Embora nem sempre citado, um dos motivos que levam esses colegas ao cepticismo é exatamente o poder de interferência das fontes nos processos jornalísticos, e isso nos tolhe de perplexidade. Atribui-se a esse poder das fontes, e à competência com que agendam as redações, uma angustiante pasteurização de texto e atitudes que estaria levando o jornalismo para omissões prejudiciais à democracia.

Antigamente as coisas não eram assim, dizem os colegas saudosos, como se antigamente a sociedade fosse mais bem informada.

Não consigo enxergar as coisas desse modo. Quanto mais comparo jornais de épocas diferentes, mais me convenço de que não há razões para saudosismos. Do mesmo modo, não vislumbro razões para ter saudades das democracias (com ou sem aspas) de antigamente.

 

 

Saí de Portugal em 1961, quando o Brasil era, no imaginário dos portugueses, um mito de democracia. Em quatro anos de governo com liberdades políticas que os registros formais consideram plenas, Juscelino Kubitschek construíra Brasília, colocara o Brasil nos trilhos da industrialização, impusera-se à história como um líder do progresso e da democracia.

Façamos, então, uma rápida viagem aos tempos de JK. 

 

2- Enganações em tempos de JK

 

Dois meses antes do fim do século XX, chegou às livrarias brasileiras o livro Gaiola Aberta, de Autran Dourado, escritor de sucesso, ganhador do o Prêmio Luiz de Camões, em 2000..

Autran Dourado foi assessor de imprensa de JK, na Presidência da República. E na “Gaiola Aberta”, o escritor expõe sem censuras nem auto-censuras os bastidores do poder que partilhou, nos tempos de JK. Revela, com riqueza de detalhes e precisão irretocável, episódios espantosos em que jornais e jornalistas foram enganados ou submetidos a vários tipos de chantagem.

Num dos segredos no livro revelados por Autran Dourado, ficamos sabendo que JK teve um infarto jamais noticiado, porque D. Sara, esposa do presidente, decidiu que os brasileiros não deveriam ser informados. Além de esconder a notícia, o assessor de imprensa representou durante um mês o papel de Presidente da Republica, aproveitando-se da semelhança de estatura e perfil que à distância o tornava parecido com Juscelino. Em determinada ocasião, com distanciamento conveniente, deixou-se até fotografar embarcando num helicóptero, e acenou para os jornalistas com gestual igual ao do presidente. Fez mais do que isso: forjou a assinatura de JK em numerosos papéis, para encaminhar questões que não podiam esperar.

Autran Dourado enganou o país durante um mês. Pode até ter enganado alguns jornalistas. Mas é difícil acreditar que o tenha conseguido sem a cumplicidade de repórteres e editores mais chegados, entre os quais os experientes repórteres credenciados na Presidência.

Que não se caia na tentação de avaliar moralmente o que Autran Dourado fez e os jornalistas consentiram, tenham eles sido vítimas ou cúmplices. Mas certamente os cidadãos brasileiros tinham, quando o livro saiu, um jornalismo mais confiável e competente. Até porque a democracia já era outra. 

 

3 – Poder das Fontes
      desumaniza o relato jornalístico

 

Mais do que fazer comparações com o passado, e sem recorrer a elas, o que importa é enxergar com lucidez os problemas do jornalismo de hoje, criados em grande parte pelas revolucionárias tecnologias de difusão e pelo uso competente que delas fazem as instituições e os grupos organizados.

Não há como deixar de reconhecer que a apropriação do discurso jornalístico, pelas fontes, projeta sobre os conceitos e as práticas do jornalismo uma crise nova, em vários aspectos complicada. E uma das manifestações da crise está na desumanização do relato jornalístico. O jornalista parece ter renunciado ao papel de narrador do seu tempo, ou então perdeu a percepção humanística desse papel.

Por que terá isso acontecido?

A desumanização do texto jornalístico é também efeito direto da competência discursiva dos sujeitos institucionais. Numa nova esgrima retórica, em forma de fatos e falas, eles produzem discursos conflitantes para o relato jornalístico. E o jornalismo contenta-se com a exploração do conflito pelo conflito, erro a que as redações são induzidas pela competência falante dos sujeitos institucionais.

A “emoção” planejada dos embates discursivos induz ao entendimento de que os conflitos se compõem apenas de duas partes – governo x oposição, progressistas x conservadores, negros x brancos, partido x partido, mulheres x homens, pobres x ricos, patrões x empregados…

Trata-se de uma visão limitante, que convém às fontes, mas da qual os jornalistas precisam se libertar. Qualquer conflito da democracia só é relevante na medida em que interfere no aperfeiçoamento da sociedade. E é do lado da sociedade, dos valores que a organizam e lhe dão sentido, que o jornalismo tem de ficar.

Quando faz essa escolha, o jornalismo assume inevitavelmente a vocação de linguagem narradora, para desvendar o que está abaixo e acima da linha dos conflitos. E se humaniza, porque abaixo e acima da linha dos conflitos estão as pessoas e as razões da vida.

 

(Texto originariamente publicado no livro CHAPARRO, Manuel Carlos, Linguagem dos Conflitos, Coimbra, Minerva Coimbra, 2001 – aqui transcritas com pequenas adaptações)

 

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