JornalismoLinguagemAtualidade

Pasta de Textos

A Revolução das Fontes

Publicado por Professor Carlos Chaparro em 23 de março de 2016

A Revolução das Fontes (I)

Elas conquistaram o poder
de agendar e rechear a Notícia

Democracia, mercado e tecnologia formaram a mistura que criou a lógica da competição sustentada em informação, com mais ou menos exageros neoliberais. Institucionalizaram-se os interesses, as ações, as próprias pessoas. Globalizaram-se os processos, as emoções, principalmente os fluxos e os circuitos da informação. E noticiar passou a ser a mais eficaz forma institucional de agir, discursando, e de discursar, agindo.
Um estudo de caso mostra como o  MST usa a Notícia como forma de agir.

 

Elas conquistaram o poder
de agendar e rechear a Notícia

Os jornalistas não gostam de ouvir nem de dizer que dependem das fontes. Entretanto, na dimensão do mundo real, é na fonte que o repórter colhe o relato, o testemunho, a opinião, os ais e uis com que compõe a narrativa do quotidiano, sua arte maior. No jornalismo, até ao mais brilhante contador de histórias de pouco servirá a arte de escrever se não souber onde estão as boas fontes e como lidar com elas.

Dependemos das fontes, e sempre foi assim. Sem elas não existe a informação decisiva, o detalhe poético, a versão esclarecedora, a frase polêmica, a avaliação especializada. A fonte faz acontecer, revela o segredo, detém o saber ou a emoção que queremos socializar. Ou sofre os efeitos e a eles reage.

Assim como a seiva está para a árvore, a fonte está para o repórter, o editor e o articulista da análise diária. Por isso o jornalista a cultiva e preserva, às vezes com intimidade perigosa, e com ela partilha segredos que não chegam ao leitor.

Na hora de escrever, na rotina da produção e dos procedimentos profissionais (os conscientes e os inconscientes), a perspectiva das fontes influencia, inevitavelmente, a decisão jornalística – e quanto mais competente elas se tornam, mais capazes são de determinar enfoques, relevâncias e até títulos, na narração jornalística.

***

Já houve tempo, longo tempo, em que tanto as empresas e as organizações sociais quanto as instituições governamentais tinham, em relação à imprensa, uma atitude passiva e burocrática, quase sempre defensiva. E porque havia escassez de fatos e casos importantes intencionalmente produzidos, o inusitado, o insólito, o engraçado, e também o linearmente dramático (o atropelamento, a tragédia, o crime passional, a morte inesperada…) reinavam como atributos decisivos nos critérios de pauta e edição, também nos grandes jornais. Foram tempos em que o fait-divers ganhou honrarias e venerações de mito, na cultura jornalística.

As coisas mudaram ao longo dos anos 70, principalmente depois deles.

Democracia, mercado e tecnologia formaram a mistura que criou a lógica da competição sustentada em informação, com mais ou menos exageros neoliberais. Institucionalizaram-se os interesses, as ações, as próprias pessoas. Globalizaram-se os processos, as emoções, principalmente os fluxos e os circuitos da informação. E a Notícia tornou-se o produto mais abundante da realidade global.

Noticiar passou a ser a mais eficaz forma institucional de agir, discursando, e de discursar, agindo. Para o sucesso, as instituições apropriaram-se das habilidades narrativas e argumentativas do jornalismo; assimilaram as rotinas e a cultura da produção jornalística; e no planejamento e controle dos acontecimentos, a dimensão comunicativa ganhou preponderância, para a divulgação dos eventos e a difusão do discurso.

Em crescendo que a pesquisa acadêmica especializada precisaria acompanhar melhor, aumentou, em pautas e noticiários, a participação de acontecimentos planejados, com conteúdos gerados e fornecidos pelas fontes.

Estudo de caso:
O “fazer” e o “dizer” do MST

No Brasil dos últimos vinte anos, ninguém fez melhor isso do que o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Trata-se de um case notável de utilização do jornalismo como linguagem e espaço de ação discursiva.

Ao contrário do que o próprio movimento sugere, o MST é uma organização bastante complexa. Tem áreas de decisão protegidas pelo sigilo; lideranças (várias delas com formação superior) cuja hierarquia não é perceptível; capacidade de ação e articulação que nenhuma outra organização social exibe no Brasil; e fontes de suprimento financeiro de várias origens, inclusive internacionais.

O movimento surgiu e cresceu com o mais coerente discurso de esquerda, na história recente brasileira, com a novidade de cultivar uma síntese de marxismo e cristianismo. E com o apelo sedutor de ter a justiça social como razão de ser e agir – que lhe serviu muito, e bem, pelo menos enquanto não assumiu publicamente o objetivo principal de lutar por um modelo socialista de regime e de reforma agrária.

O inquestionável sucesso político do MST deve-se à conjugação inteligente de todos esses fatores. Mas resulta, principalmente, da perfeita sintonia entre o fazer e o dizer, entre a ação e a divulgação. As ações do MST têm, quase sempre, alta dosagem de interesse jornalístico. E por causa da alta dosagem de interesse jornalístico, a conquista de espaço na mídia é decorrência natural.

A competência do movimento para lidar com a informação amplia a rentabilidade jornalística dos acontecimentos. E a eficácia da divulgação agrega, às ações, dosagens significativas de sucesso. Foi o que aconteceu com a marcha dos Sem Terra até Brasília – provavelmente, a mais ousada e complexa ação política na história do MST.

***

A Marcha teve início no dia 17 de Fevereiro de 1997, em tempos áureos de Fernando Henrique Cardoso. Participaram da Marcha cerca de 1.200 militantes do MST, divididos em três colunas, saindo de pontos diferentes do País, em itinerários convergentes para Capital. Os três grupos chegaram a Brasília no dia 17 de Abril, onde, aos Sem Terra, se juntaram milhares de outros trabalhadores, para manifestações conjuntas de protesto e oposição, em favor da reforma agrária.

Com finalidades acadêmicas, coordenei, naquele mesmo ano, um estudo sobre o significado discursivo dos acontecimentos (projeto realizado com a ajuda financeira da FAPESP). Medições feitas para esse projeto revelaram que, somente em dois jornais (Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo), a Marcha dos Sem Terra a Brasília gerou, no seu percurso de dois meses, 374 peças jornalísticas, entre reportagens, editoriais, crônicas, artigos assinados, notícias e entrevistas. Essas peças (incluindo texto e fotos) ocuparam um espaço total de 120.432 cm2, o que corresponderia a 67 páginas impressas em formato standart.

***

Para poder atribuir significado a esses números, conversei longamente, em maio de 1997, com o então coordenador nacional de comunicação do MST. Neuri Rossetto. Ele era um dos vários dirigentes do movimento oriundos ou ligados á Igreja Católica. Conversou aberta e naturalmente sobre todas as questões colocadas, proporcionando à entrevista um conteúdo de alta valia para a compreensão do MST, que ele definiu assim:

O movimento tem três objetivos. O primeiro é promover a luta pela terra, ou seja, a luta corporativa do camponês que não tem terra e necessita dela para sobreviver. Foi o primeiro estágio da nossa luta. O segundo objetivo é a reforma agrária, e essa é uma luta mais ampla do que a luta pela terra. Porque implica, em

Leia Também

cursos

Curso de jornalismo – aula 1

Aula 1 - Fundamentos introdutórios

Mais vídeo aulas